Literatura e identidade: autores goianos que merecem ser lidos

Por que a literatura regional importa
Toda grande literatura nasce de um lugar. Das planícies russas de Tolstói às ruas cariocas de Machado de Assis, a geografia não é apenas cenário — é personagem, é destino, é substância. A literatura regional não é uma variante menor da literatura nacional: ela é o solo fértil de onde emergem vozes que não encontrariam espaço nos cânones urbanos e cosmopolitas. Quando um povo se reconhece em suas histórias, consolida sua identidade; quando desconhece seus escritores, perde parte de sua memória.
Goiás possui uma tradição literária rica, diversificada e ainda insuficientemente valorizada no cenário nacional. Conhecer seus autores é um ato de reconhecimento cultural — e também uma descoberta literária genuína, capaz de surpreender qualquer leitor exigente.
Cora Coralina: a voz dos becos e do tempo
Cora Coralina nasceu em 20 de agosto de 1889 na cidade de Goiás Velho — então capital da província — e viveu quase um século marcado por obstáculos e por uma poesia que resistiu a todos eles. Durante décadas, sustentou-se como doceira e guardou seus poemas para si. Foi apenas aos 76 anos, em 1965, que publicou seu primeiro livro: Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais.
A recepção foi imediata e avassaladora. Em uma época em que a poesia brasileira ainda se debatia entre o hermetismo concretista e o intimismo confessional, Cora trouxe uma voz inconfundível: direta, telúrica, carregada de memória coletiva. Seus becos não eram apenas ruas de pedra — eram territórios de mulheres silenciadas, de crianças descalças, de um Brasil que a literatura oficial ainda não havia aprendido a ver.
"Eu sou aquela mulher / a quem o tempo / muito ensinou. / Ensinou a amar a vida. / Não desistir da luta. / Recomeçar na derrota." — Cora Coralina, Vintém de Cobre
Cora Coralina tornou-se uma das poetas mais celebradas do Brasil, recebendo o Prêmio Juca Pato em 1983 e sendo indicada para o Prêmio Nobel de Literatura antes de falecer em 1985. Sua casa em Goiás Velho é hoje o Museu Casa de Cora Coralina, um dos pontos culturais mais visitados do estado.
Hugo de Carvalho Ramos: o primeiro censo literário do sertão goiano
Hugo de Carvalho Ramos (1895–1921) viveu apenas 26 anos, mas deixou uma obra que resistiu ao tempo com singular força. Seu livro de contos Tropas e Boiadas (1917) é considerado o primeiro grande retrato literário da vida no sertão goiano — os boiadeiros, os tropeiros, as fazendas, o ritmo lento e violento do Cerrado antes do advento das estradas e da modernização.
Carvalho Ramos escrevia com precisão vocabular e sensibilidade etnográfica. Seus personagens não são tipos folclóricos — são seres humanos complexos, dilacerados entre a tradição e a mudança, entre a lealdade ao torrão natal e o apelo do mundo exterior. Tropas e Boiadas é leitura obrigatória para quem deseja compreender as raízes da cultura goiana.
Bernardo Élis: o Cerrado como tragédia e beleza
Se Hugo de Carvalho Ramos abriu o caminho, Bernardo Élis (1915–1997) o pavimentou. Seu livro de estreia, Ermos e Gerais (1944), introduziu na literatura brasileira uma visão do interior goiano marcada por brutalidade, misticismo e uma prosa de rara densidade poética. Nenhum autor antes havia descrito o Cerrado com tanta ambivalência — o encanto da paisagem e a dureza das relações sociais que nela se desdobram.
Bernardo Élis foi o primeiro autor goiano eleito para a Academia Brasileira de Letras, em 1975, consagrando Goiás no mapa literário nacional. Sua obra completa, que inclui romances como O Tronco (1956), permanece uma referência incontornável da ficção brasileira do século XX.
José J. Veiga: o realismo mágico do interior
José J. Veiga (1915–1999) é o nome goiano com maior projeção internacional. Seus livros — especialmente A Hora dos Ruminantes (1966) e Sombras de Reis Barbudos (1972) — foram traduzidos para o inglês, francês, alemão e outras línguas, sendo comparados ao realismo mágico de Gabriel García Márquez e Günter Grass.
Em Veiga, o absurdo penetra o cotidiano de cidadezinhas brasileiras com a naturalidade de uma chuva de verão. Suas alegorias políticas — escritas sob a ditadura militar — denunciam o autoritarismo sem jamais nomeá-lo diretamente, o que lhes confere uma dimensão universal que transcende o contexto histórico imediato.
Recomendações por faixa etária
Para tornar a literatura goiana acessível em diferentes momentos da vida, seguem algumas sugestões:
- Crianças (6–10 anos): versões ilustradas de poemas de Cora Coralina, disponíveis em edições infantis da Global Editora.
- Jovens (11–17 anos): A Hora dos Ruminantes, de José J. Veiga — narrativa envolvente, com suspense e camadas de interpretação que crescem com o leitor.
- Adultos: Ermos e Gerais, de Bernardo Élis, e Tropas e Boiadas, de Hugo de Carvalho Ramos — para entender de onde viemos.
- Para qualquer idade: Vintém de Cobre: Meias Confissões de Aninha, de Cora Coralina — poesia que fala diretamente ao coração.
O IBRACEDS e o fomento à leitura e à cultura goiana
Valorizar a produção literária regional é parte indissociável da missão do IBRACEDS. O instituto compreende que a identidade cultural de um povo se forja também pela memória de suas histórias escritas — e que promover o acesso à literatura goiana, em escolas, bibliotecas e espaços comunitários, é uma forma concreta de fortalecer os laços entre as gerações e de garantir que vozes como a de Cora Coralina continuem a encontrar leitores à sua altura.
